Muitos projetos e pouca gente: quando contratar resolve e quando só aumenta o problema
Contratar só resolve quando você tem muitos projetos, faz uma priorização de projetos honesta e ainda falta time. Antes disso, gente nova costuma ser absorvida pelo mesmo excesso de projetos que criou a falta de capacidade.
Você conhece o roteiro. O ciclo de planejamento começa, cada diretoria traz suas prioridades número um, tecnologia soma tudo e descobre que precisaria de muito mais gente do que tem. A negociação que vem depois é sempre a mesma: mais headcount, prazo mais longo ou cobrança por produtividade.
Quase ninguém pergunta o que deveria sair da lista.
Não é impressão. Numa pesquisa da Booz & Company com mais de 2.000 executivos, publicada na strategy+business, 64% disseram que suas empresas tinham prioridades conflitantes demais, e 49% afirmaram que não havia sequer uma lista de prioridades estratégicas.
Em muitas empresas grandes, a falta de capacidade não é falta de gente: é excesso de iniciativas que ninguém consegue justificar e ninguém tem autoridade, ou coragem, para parar. Por isso, antes de pedir mais gente, a pergunta é outra: quantos dos projetos que ocupam seu time seriam aprovados se chegassem hoje?
Um projeto verde pode estar queimando dinheiro
Imagine um projeto importante no status report: prazo verde, orçamento verde, escopo verde, 70% executado. A gestão parece impecável.
Agora faça outra pergunta: se esse projeto ainda não existisse, nós o aprovaríamos hoje?
O status report não responde isso. Para responder, é preciso olhar para outras coisas:
- O problema original continua relevante?
- A premissa que justificou o investimento continua válida?
- O benefício esperado ainda compensa o dinheiro, o tempo e as pessoas que o projeto consome?
- Surgiu uma alternativa melhor?
- A prioridade do negócio mudou?
É perfeitamente possível ter um projeto bem executado que já não deveria estar sendo executado. O acompanhamento tradicional mede se estamos fazendo certo. Quase nunca mede se ainda estamos fazendo a coisa certa.
O PMI trata disso como gestão da realização de benefícios (Benefits Realization Management): a entrega não encerra a discussão sobre valor. O benefício precisa estar ligado à estratégia, ter um responsável e continuar sendo acompanhado depois da entrega. No Pulse of the Profession o PMI apontou que 83% das organizações não tinham maturidade nessa prática, e que 74% dos projetos atingiam metas e intenção de negócio quando os benefícios eram identificados antes do início.
Como o portfólio incha: a priorização de projetos ao contrário
O caminho de uma iniciativa deveria partir do resultado. Em muitas empresas, ele parte da ideia.
| Como deveria ser | Como costuma acontecer |
|---|---|
| 1. Resultado que o negócio precisa | 1. Surge uma ideia |
| 2. Driver que precisa mudar | 2. Alguém importante patrocina |
| 3. Processo afetado | 3. Vira projeto |
| 4. Capacidade necessária | 4. Recebe orçamento |
| 5. Iniciativa | 5. Consome pessoas |
| 6. Benefício esperado | 6. Depois alguém tenta explicar qual estratégia ele atende |
| 7. Resultado medido | 7. O projeto termina sem medição de resultado |
A coluna da direita é de onde vêm as dezenas de prioridades simultâneas, os projetos que nunca terminam e as equipes que parecem permanentemente sem capacidade. Cada item entrou por um motivo legítimo para alguém. Nenhum entrou com critério para sair.
Da meta de EBITDA à tecnologia: a ordem importa
“Aumentar EBITDA” é uma direção correta, mas ainda não diz o que fazer. É preciso descer a cadeia:
EBITDA → receita → retenção → reduzir cancelamentos → entender por que os clientes estão saindo.
Agora aparecem causas concretas: preço, atendimento, produto, canais digitais, percepção de valor. Suponha que os dados apontem problemas relevantes na jornada digital. A cadeia continua:
Reduzir cancelamentos → melhorar a experiência digital → corrigir os processos críticos da jornada → integração, dados, arquitetura, automação ou IA.
A tecnologia apareceu depois do problema. A conversa não começou com “precisamos de um projeto de IA”. Começou com “precisamos reduzir cancelamentos: o que está causando isso e onde a tecnologia gera resultado?”.
Para decidir investimento, IA poderia se chamar biscoito
Quando alguém diz “precisamos usar IA”, a primeira pergunta deveria ser: para produzir qual resultado?
Para a decisão de investimento, IA poderia se chamar automação, software, algoritmo ou biscoito. O nome da tecnologia não justifica o projeto. A sequência ruim é “temos IA, onde podemos usar?”. A sequência boa começa pelo resultado a melhorar, passa pelo problema, pelo processo e pela linha de base, e só então escolhe a intervenção. IA pode ou não fazer parte dela.
Os números confirmam que adoção não é resultado. O BCG reportou em 2025 que 60% das empresas pesquisadas obtinham pouco ou nenhum valor material com IA, com ganhos mínimos de receita e custo. Em 2024, a mesma consultoria mostrou que as empresas que lideram em IA colocam 10% dos recursos em algoritmos, 20% em tecnologia e dados e 70% em pessoas e processos. Valor vem de mudar o trabalho, não de ligar a ferramenta.
O teste de cinco perguntas antes de aprovar qualquer iniciativa
Não é preciso outro framework. Antes de um projeto entrar no portfólio, cinco respostas precisam estar claras:
- Qual resultado do negócio queremos alterar? Não “modernizar”, “inovar” ou “usar IA”. Qual resultado.
- Qual é a linha de base? Sem saber onde estamos, não há como provar melhoria.
- Qual benefício esperamos? Receita, custo, risco, produtividade, experiência, disponibilidade ou outra variável mensurável, com valor estimado.
- Quem responde pelo benefício? O gerente do projeto responde pela entrega. Alguém do negócio precisa responder pelo resultado.
- Quando vamos verificar se funcionou, e o que nos faria parar? Projeto entregue não é benefício realizado. E projeto sem critério de parada só para quando acaba o dinheiro ou a paciência.
Sem essas respostas, ainda não existe um projeto. Existe uma ideia. Ideias podem ser ótimas, só não deveriam disputar orçamento e pessoas como se já fossem prioridade estratégica.
Como liberar capacidade no portfólio que já existe
O teste protege a porta de entrada. Mas a capacidade que falta hoje está presa no que já entrou. É ali que está a resposta para quem precisa de gente agora.
- Liste tudo o que consome pessoas, não só o que está no escritório de projetos. Demandas recorrentes, projetos pequenos de área e pilotos que viraram operação entram na conta.
- Aplique a cada item a pergunta “aprovaríamos hoje?” e as cinco perguntas acima.
- Classifique em três grupos: continua (passa no teste), reformula (falta resposta, e o dono do benefício tem prazo curto para completá-la) e para (não passa, ou ninguém assume o benefício).
- Leve ao comitê a decisão de parar com o ganho explícito: quantas pessoas e quanto orçamento voltam para as iniciativas que passaram no teste.
- Para o que continua, registre o critério de parada e a data da próxima verificação de benefício.
Parar um projeto em andamento custa caro politicamente, porque alguém importante o patrocinou e o investimento já feito pesa na decisão. Por isso a decisão não pode ser da TI. A TI mostra o custo em capacidade; o dono do resultado decide se o benefício ainda vale esse custo.
Governança madura não existe para colocar mais etapas entre a ideia e a execução. Existe também para ajudar a empresa a dizer não.
Quando contratar resolve de fato
Depois do filtro, a conta muda de natureza. Se o que sobrou de projetos ativos ainda demanda recursos, aí sim falta gente, e o pedido de contratação passa a ter uma base que o CFO consegue avaliar.
Contratar tende a resolver quando:
- o portfólio já passou pelo teste e o que sobrou, com resultado, linha de base e dono, ainda excede a capacidade;
- o gargalo está em trabalho recorrente que cresce com o negócio (mais usuários, mais sistemas, mais volume de operação), e não num pico de projetos;
- falta uma competência específica que trava várias iniciativas aprovadas ao mesmo tempo;
- o benefício que as iniciativas atrasadas deixam de gerar é maior que o custo da contratação.
Contratar tende a só aumentar o problema quando:
- ninguém consegue dizer o que sairia da lista, e a nova capacidade será ocupada pelo mesmo fluxo sem filtro;
- o pico é temporário, e uma contratação permanente vira custo fixo para um problema passageiro;
- o projeto já está atrasado e a expectativa é que gente nova recupere o prazo. Fred Brooks descreveu isso em 1975, em The Mythical Man-Month: colocar mais gente num projeto de software atrasado o atrasa ainda mais, porque quem chega precisa ser integrado e treinado por quem já está lá.
A diferença aparece no próprio pedido. “Estamos sobrecarregados” é percepção. “Estas iniciativas passaram no teste, geram este benefício e não cabem na capacidade atual” é um caso de investimento.
Na prática: o pedido de mais gente vem junto com a lista do que sai. Se a área não consegue apontar nada que deixaria de fazer, o pedido ainda não está pronto para ser aprovado.
Talvez sua empresa não precise de tantos projetos
Quando uma organização reclama o tempo todo de falta de capacidade, há duas possibilidades: falta capacidade de fato, ou há iniciativas demais disputando recursos limitados. Contratar resolve a primeira. A segunda exige decisões mais difíceis: priorizar, interromper, consolidar e dizer não.
Por isso uma boa governança não deveria ser medida pela quantidade de projetos que acompanha, e sim por quantos deles consegue justificar.
Quantos projetos do seu portfólio você conseguiria ligar, em menos de dois minutos, a um resultado de negócio, uma linha de base, um benefício esperado e alguém responsável por realizá-lo?
