“Por que eu trabalho com TI e ganho pouco?”

Muita gente entra em TI por duas promessas: trabalhar com o futuro e ganhar bem. A segunda depende de algo que quase ninguém explica quando você entra na área: TI paga bem por decisão, não por execução.

Por isso tanta gente acumula anos de experiência técnica e continua ganhando menos do que esperava. Não falta competência. O problema é que essas pessoas vendem ao mercado justamente a parte do trabalho que a IA está começando a assumir.

Em TI, a remuneração acompanha o tamanho da decisão pela qual você responde, não a profundidade na ferramenta e tecnologia que você opera. Quem entende isso para de colecionar tecnologias e começa a medir o próprio trabalho em reais.

Durante anos, o conselho padrão de carreira foi o contrário: escolha uma tecnologia, vire especialista e o dinheiro vem como consequência. Eu mesmo já escrevi isso aqui. O conselho envelheceu mal, e os dados mais recentes mostram por quê.

A especialização em ferramenta virou o ativo mais exposto

O Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, mostra que os empregadores esperam mudança em 39% das competências centrais dos trabalhadores até 2030. Na edição de 2023, a estimativa era de 44%. O ritmo estabilizou, mas num patamar alto.

Isso pesa mais sobre quem construiu a carreira em cima de uma versão de produto. A habilidade de operar uma ferramenta vence junto com a ferramenta.

O estudo Canaries in the Coal Mine?, de Erik Brynjolfsson, Bharat Chandar e Ruyu Chen (Stanford, agosto de 2025), completa o quadro. Com dados de folha de pagamento dos Estados Unidos, os autores encontraram queda relativa de 13% no emprego de profissionais de 22 a 25 anos nas ocupações mais expostas à IA. Nas mesmas ocupações, o emprego dos mais experientes ficou estável ou cresceu.

O detalhe que importa: a queda se concentrou onde a IA automatiza o trabalho, não onde ela o complementa. Execução que cabe num passo a passo está sendo repassada para a máquina. Julgamento sobre o que fazer, quando parar e quanto risco aceitar continua com gente.

O que a tabela salarial mostra quando lida pelo ângulo certo

O Guia Salarial 2026 da Robert Half traz, para gerente de segurança da informação, mediana de R$ 28.900. Para CSO, R$ 40.650. Para CIO, R$ 41.550.

A leitura óbvia é que cargo de gestão paga mais. A leitura útil é outra. A distância entre essas faixas não vem de conhecimento técnico: muitas vezes o gerente de segurança domina a tecnologia melhor que o CSO. Ela vem do tamanho da perda pela qual cada um responde quando algo dá errado.

O mesmo guia lista “Segurança da Informação e Gestão de Riscos de TI” entre as especializações associadas a remuneração acima da média. Gestão de riscos é a disciplina de decidir sob incerteza com dinheiro em jogo. Não é coincidência que ela apareça ali.

Execução descreve o que você fez. Valor descreve o que mudou.

É comum descrever trabalho de TI em termos de atividade. O problema é que atividade é exatamente o que a automação está barateando.

Descrição de execuçãoDescrição de valor
Migrei os servidores do data center para a nuvemA migração permitiu encerrar o contrato do data center, e o financeiro confirmou a economia no fechamento do trimestre
Implantei a ferramenta de gestão de acessosO ciclo de revisão de acessos caiu de semanas para dias, e o time liberado passou a tratar a fila de projetos parados
Automatizei o relatório de incidentesA diretoria passou a decidir a renovação do contrato de suporte pelo custo por incidente, não por percepção

Exemplo ilustrativo.

A coluna da esquerda uma IA redige amanhã. A da direita exige alguém que entendeu qual decisão o trabalho sustentava e quem precisava daquele número.

Ficha de valor: como provar o que o seu trabalho vale

Ficha de valor é o registro, entrega por entrega, da decisão que o trabalho sustentou e do resultado que foi medido. É a versão individual do que a governança chama de realização de benefícios.

Para as três ou quatro entregas mais relevantes do seu ano, preencha:

  1. Decisão sustentada. Qual decisão de negócio dependia dessa entrega e quem a tomou.
  2. Dinheiro em jogo. Custo evitado, perda evitada ou receita protegida, em reais, com a premissa escrita ao lado.
  3. Linha de base. Como era antes, com o número da época, não de memória.
  4. Medição. Quando, como e com qual fonte o resultado foi medido.
  5. Dono do resultado. Quem, fora de TI, reconhece esse número como verdadeiro.

O teste está nos itens 2 e 5. Se você não consegue preencher nenhum dos dois, a entrega foi execução. Pode ter sido excelente, mas o mercado paga execução pelo preço de execução, e esse preço está caindo.

Com os itens 2 e 5 preenchidos, a conversa sobre promoção, aumento ou proposta muda de natureza. Você deixa de pedir reconhecimento e passa a apresentar um resultado que outra pessoa já validou.

O que muda para o especialista e para quem lidera

Para o especialista, a profundidade técnica continua necessária. Só deixou de ser suficiente. O passo seguinte é trocar a pergunta “como faço isso funcionar” por “o que a empresa ganha ou perde se isso funcionar ou falhar”.

Para quem lidera times de TI, o raciocínio vale ao contrário. Se a equipe só consegue descrever atividade, o problema não está nas pessoas: ninguém conectou as entregas às decisões que elas sustentam. E uma área que só descreve atividade é vista como custo, com o orçamento e os salários que isso implica.

Se você tivesse que defender seu salário hoje apenas com números que alguém fora de TI confirmaria, quantas entregas do último ano entrariam na conversa?

Demian dos Santos
Demian dos Santos

Lidera governança de TI, riscos e IA em uma companhia aberta. São mais de 20 anos em TI, do suporte ao comitê, passando por infraestrutura, NOC, SOC e atuação como DPO e vCISO. Escreve aqui sobre o que funciona na prática e o que só existe no papel.